DNA

DNA

terça-feira, 10 de julho de 2012

EFEITOS DE BORDA NA FRAGMENTAÇÃO DE ECOSSISTEMAS - Lyndon Johnson Batista de Souza*


A explosiva expansão populacional e econômica da humanidade nos últimos séculos transformou o que antes eram grandes áreas contínuas de florestas em paisagens em mosaico, formadas por manchas remanescentes das florestas originais, cercadas por áreas alteradas pelo homem de várias formas: plantações, pastagens, assentamentos urbanos. Este processo, ao qual chamamos de fragmentação florestal, acelerou-se imensamente no século XX. O resultado é que hoje, na maioria das regiões do mundo, pobres e ricas, temperadas e tropicais, as florestas originais estão reduzidas a uma grande coleção de “ilhas” de mata, cada vez menores e mais isoladas, cercadas por áreas abertas. Ainda mais preocupante, a fragmentação florestal tem se acelerado muito nas últimas décadas nas grandes áreas de florestas tropicais ainda remanescentes no mundo, na Amazônia, no oeste da África e no sudeste da Ásia.1 
         A primeira percepção que teríamos é que um fragmento é simplesmente uma amostra da floresta original, ou seja, que a mata pequena seria essencialmente idêntica à grande floresta, apenas menor. Infelizmente, porém, essa é uma expectativa ingênua. O Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), um grandioso programa de pesquisa que vem sendo realizado ao norte de Manaus, vem estudando, há várias décadas, o que acontece com fragmentos de floresta Amazônica de 1, 10, 100 e 1000 hectares, após terem sido isolados. Vários dos resultados obtidos têm sido inesperados e perturbadores. A floresta morre de fora para dentro, vitimada por um conjunto de processos conhecidos como “efeitos de borda”. A partir do momento em que uma pequena mata passa a estar cercada por áreas abertas, uma série de alterações microclimáticas começam a ocorrer em cadeia, na periferia do fragmento. Primeiro, mais luz solar chega ao solo do que no interior da floresta fechada. Isso não só já faz com que a mata seja mais clara, mas, também, resulta em um aumento da temperatura do solo, o qual por sua vez aquece o ar. Com o ar mais quente, a umidade se perde por evaporação, tornando-o mais seco. Com o aumento da insolação e o ressecamento, proliferam plantas heliófilas arbustivas. Uma outra alteração, com efeitos inesperadamente drásticos, é o aumento de exposição ao vento. As árvores no interior da floresta estão protegidas contra a força dos ventos por suas vizinhas: quase não venta no interior da mata. Já as árvores da borda estão completamente expostas. Em árvores da floresta amazônica, muito altas, mas com raízes muito superficiais, os efeitos são particularmente desastrosos. A cada ventania as árvores externas tombam em grande quantidade, por sua vez expondo suas vizinhas internas para serem as próximas; a borda vai entrando cada vez mais para dentro da floresta, que vai aos poucos morrendo e se encolhendo. Com a mudança completa da estrutura dos fragmentos, os animais começam a ser também afetados; a composição da comunidade animal também muda drasticamente.2 Espécies exóticas podem invadir o interior da mata acarretando na diminuição da biodiversidade local. Populações pequenas e isoladas tendem a praticar endogamia aumentando a homozigose e a incidência de genes deletérios.3 
          Todo este amplo e variado conjunto de mudanças, que é coletivamente conhecido como efeitos de borda, vão entrando até distâncias de dezenas ou centenas de metros para dentro do fragmento. Quando estes são pequenos, de 1 a 10 hectares, os efeitos de borda afetam toda a superfície do fragmento, realizando uma triste façanha: ir de mata a capoeira, sem precisar cortar. Mesmo em fragmentos muitos maiores, da ordem de centenas de hectares, a degradação causada pelo efeito de borda é bastante perceptível, e tende a penetrar cada vez mais na mata. Os fragmentos, mesmo os bastante grandes, são muito diferentes da mata original, na estrutura da sua vegetação, assim como na composição de sua fauna e flora, pelo simples fato de serem fragmentos.2
A maioria dos fragmentos de mata restantes no Brasil são em média de 10 hectares, e portanto não devem servir de muita coisa para uma população de uma espécie de grande porte que esteja isolada nele. Embora existam áreas bem maiores, como por exemplo, o Parque Nacional da Tijuca no Rio de Janeiro, com um pouco mais de 3.000 hectares (30 Km2), e o do Iguaçu, no Paraná, com aproximadamente 185.000 hectares (1.850 Km2), uma pergunta não quer calar: será que com áreas assim não seríamos capazes de preservar qualquer espécie de animal? A triste resposta é que não.

Professor Lyndon Johnson em meio a uma clareira na Floresta da Tijuca - RJ
Para entender porque, é só compreendermos o que tem acontecido com a onça pintada (Panthera onca) no Brasil. Onças são animais grandes, que se alimentam de presas grandes que por sua vez já não são tão comuns assim. Em vista disso, cada onça (ou casal de onças) necessita de uma área muito extensa para sobreviver, área essa que não é sobreposta com a de outras onças (ou casais), uma vez que são territoriais. Traduzindo em números, no Iguaçu tínhamos, até recentemente, cerca de 150 onças numa área de 1.850 Km2, o que dá uma densidade populacional de aproximadamente uma onça por doze quilômetros quadrados (1.200 hectares). Na Floresta da Tijuca, então, não poderiam caber os territórios nem mesmo de três onças, e na grande maioria dos fragmentos florestais hoje remanescentes no Brasil não caberia o de uma sequer. Não é de se estranhar, então, que não haja mais onças na Floresta da Tijuca, e que a espécie esteja numa situação tão crítica em nosso país. A mensagem de tudo isso é bastante simples: há duas maneiras de se matar uma onça. A primeira, rápida e direta, pode ser a tiros ou com iscas envenenadas. A segunda, mais sutil, é destruindo seu habitat de maneira a preservar apenas um remanescente de floresta menor que a área que uma população de onças precisa para sobreviver. As duas maneiras são igualmente eficientes; a segunda é apenas um pouco mais lenta.2 
          Os fragmentos são afetados por problemas direta e indiretamente relacionados à fragmentação, tal como o efeito da distância entre os fragmentos, ou o grau de isolamento; o tamanho e a forma do fragmento; o tipo de matriz circundante e o efeito de borda. O tamanho e a forma do fragmento diferem do habitat original em dois pontos principais:
1) os fragmentos apresentam uma alta relação borda/área;
2) o centro de cada fragmento é próximo a uma borda;4

Esquema de desenho de reservas, mostrando que áreas maiores são melhores que menores (A) e que áreas menos recortadas são melhores que aquelas mais recortadas (B), o que aumenta a razão perímetro/área e com isso o efeito de borda.

















A forma de um fragmento afeta diretamente a relação entre o perímetro e a área desse fragmento. Quanto menor for esta relação, menor também será a borda e quanto maior a relação, maior será a borda. Isso significa que quanto maior a proporção de borda de um fragmento, menor será a área central, que é a área efetivamente preservada e a mais similar à vegetação original da região. Fragmentos de habitats mais próximos ao formato circular têm a razão borda/área minimizada e, portanto, o centro da área está mais distante das bordas e, consequentemente, mais protegido dos fatores externos. Áreas mais recortadas (invaginadas) têm maior proporção de bordas que as menos recortadas.5  
                 É bom lembrarmos que tanto a especiação quanto à extinção podem ser consequências da fragmentação dos habitats. Tudo depende do tempo em que, por exemplo, uma floresta fica isolada, do tamanho que adquire e do grupo taxonômico considerado. O problema é que a fragmentação antrópica tem gerado áreas muito pequenas e, portanto, pouco viáveis no médio e longo prazo. As consequências imediatas são as perdas de variabilidade de formas e genéticas, inviabilizando os processos evolutivos da especiação.
Os fenômenos e processos biológicos são alterados quando ocorre fragmentação. Perde-se diversidade e isto implica na perda de grupos funcionais em muitos lugares. Os sistemas ecológicos são simplificados e, no longo prazo, há um certo temor que essa perda se acentue. Vários serviços ambientais são prestados pelos ecossistemas à sociedade humana. A alteração dos ecossistemas leva à perda de muitos destes serviços com consequências deletérias tanto no médio quanto no longo prazo. Algumas são já claramente visíveis em nosso país, como a diminuição dos estoques pesqueiros das águas interiores e alterações nos regimes hídricos. Como o Brasil tem uma grande diversidade de paisagens e, portanto, de sistemas ecológicos, comunidades e espécies, os processos são também diversos e, somente nos últimos anos, com o desenvolvimento de vários estudos sobre o assunto, passou-se a ter um melhor entendimento destes processos.6
Quantos agentes públicos responsáveis pelo processo de decisão política estão informados a respeito da fragmentação de ecossistemas e seus impactos negativos? Como nós pesquisadores, educadores e gestores de áreas naturais, estamos (ou não) transmitindo informações científicas para que esses agentes possam balizar suas decisões políticas? Quais são os instrumentos disponíveis para tornar esse processo de comunicação mais eficiente? A tentativa de responder a estas perguntas foi o que me motivou a editar este texto que têm como destinatários os agentes públicos tomadores de decisão. 

REFERÊNCIAS


1 LAURANCE, W. F.; BIERREGAARD JUNIOR, R. O. Tropical forest remnants – ecology, management, and conservation of fragmented communities. Chicago: The University of Chicago Press, 1997.
2 FERNANDEZ, F. A. S. O poema imperfeito: crônicas de Biologia, conservação da natureza, e seus heróis. 2. ed. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2004.
3 QUAMMEN, D. The song of the dodo – island. Biogeography in an age of extinction. New York: Simon & Schuster, 1996.
4 BIERREGAARD-JR, R.O., LOVEJOY, T.E., KAPOS, V., SANTOS, A.A., HUTCHINGS, R.W. The Biological Dynamics of Tropical Rainforest Fragments. BioScience. 42:859-866. California: The University of California Press, 1992.
5 RAMBALDI, D.M.; OLIVEIRA, D.A.S. Fragmentação de Ecossistemas: Causas, efeitos sobre a biodiversidade e recomendações de políticas públicas. Brasília: MMA/SBF, 2003.
6 TABARELLI, M.; MANTOVANI, W. Efeitos da fragmentação na floresta Atlântica da Bacia de São Paulo. Hoehnea. 25:169-186. São Paulo, 1998.



*Biólogo, especialista em Genética & Evolução pela UFPI.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário